terça-feira, 19 de março de 2013


Mulheres de minha vida


É uma cidade pequena, encravada na caatinga, sem recursos, sem ânimo. Naquele lugar, com uma rica história que sobrevive nas lembranças de poucos moradores, a vida se repete igualmente todas as horas. As pessoas vivem os dias sem nenhuma novidade. O tempo não passa. Homens se arrastam por suas ladeiras, perdidos no passado de lutas, intrigas, amores, saudades. Algumas poucas fortunas, feitas graças ao ouro branco e ao comércio do gado, esvaíram-se com o bicudo e a seca.

 No contraste dessa realidade ou por causa delas, mulheres determinadas, mães, esposas, guerreiras  escalam a montanha da vida, removendo pedras e plantando flores nos corações e mentes de homens endurecidos, amorosos, companheiros, outros infelizes e muito ainda a conhecer do amor, fidelidade, respeito. A minha infância foi rica e feliz ao redor desses seres especiais. Cada uma delas trazia no rosto e no profundo olhar as marcas de uma vida de dificuldades, improvisações. Mas, sábias, não perderam a doçura, o encanto...

Como não lembrar de vó Mundinha, mulher forte e religiosa. Nascida Raimunda Fernandes Vieira, dedicou toda a sua vida com honestidade, simplicidade e amor à família. Sempre esteve presente na educação dos filhos, incentivando e aconselhando-os. Mesmo com o coração saudoso, não recuava quando se tratava de encaminhá-los aos colégios internos, longe do conforto materno.

Tivesse convivido com ela, a escritora Rachel de Queiroz a transformaria numa de suas mulheres singulares. Minha primeira heroína ensinou-me o amor pelas roseiras, suas preferidas, e orquídeas, as minhas. Diariamente, a acompanhava na inspeção ao jardim cultivado no quintal. Fica embevecida com a conversa que ela travava com as rosas, perguntava com estavam, como haviam passado a noite e desejava um dia especial par cada uma. Como resposta, a rosa-amélia, a la frança, o sangue de Cristo, os lírios, as camélias, os cravos ... perfumavam o casarão. Saudades dessa mulher contraditória e apaixonante.

O que vivi, senti e vi se confundem com a imaginação nas minhas impressões gravadas na memória, que me remetem a professora do primeiro ano primário. Esguia, durona, valente, dona Mariazinha ensinou-me o valor do conhecimento. Após fazer birra por causa da farda e me recusar a assistir aula,  apresentou-se à realidade da maioria das famílias da cidade. Levou-se a uma casa humilde onde  três crianças –  entre sete e 11 anos - estudavam sentadas no chão de barro, com cadernos e livros espalhados pelo lugar. Os garotos dividam um único lápis. Espantada, olhei para aquela temida mulher que me respondeu  com uma frase seca que ainda hoje assombra os meus pensamentos: “Enquanto meninos da sua idade lutam para aprender, você joga fora as oportunidades”. Envergonhada sai daquela casa humilde e nunca mais perdi um só dia de aula. E, o mais importante, a valorizar cada oportunidade de conhecimento.

São tantas as guerreiras de minha cidade. Branca Amélia, com seu sorriso cativante; minha avó Iracema, que viveu a valentia de transgredir as normas da época; dona Cristina e sua sopas da tarde para a neta-filha Maria Dolores e que eu sempre filava. Entre uma baforda e outro em seu cigarro de palha, nos presenteava com relatos de outros tempos; dona Socorro apresentou à minha geração a diferença entre o u do w e os números da matemática. Mulheres que transformaram Saboeiro com seus ideais de sociedade, tão bem representada por irmã Lúcia, que nos despertou para os problemas sociais. O corpo frágil escondia a força da fiel seguidora do Evangelho e da Teologia da Libertação. 

Várias mestres influenciaram minha caminhada. Tia Zuleide, diretora rigorosa do único colégio, grande incentivadora para os estudos e exemplo. Tia Águeda, continua influindo e acompanhando nossos passos, sempre com palavras de apoio e atitudes reconfortantes, mas 

Deixei por último para falar de uma pessoa fundamental em minha vida. Nasceu no Dia Internacional da Mulher, diria eu, para ser parabenizada duas vezes. Ela, certamente responderia, que veio nessa data para dividir as comemorações com todas as mães, irmãs, tias, primas, avós...

Meiga, chorona e amorosa, minha mãe Lúcia, tem dedicado toda sua existência no cuidar dos filhos e netos. Muito devo a essa senhora de 76 anos, que contrariou todas as previsões médicas e lutou ferozmente para que seu rebento caçula sobrevivesse as incertezas de uma doença sem diagnóstico. Brigou bravamente nos meus primeiros seis meses de vida para que a desnutrição e as dores não tomassem a minha alma e me levassem "para o céu".

Ao longo dos anos, dona Lúcia continua cuidando de minha e dos meus. Chora as minhas dores, festeja as minhas alegrias e vitórias. Hoje, continua zelando pela menina “raquítica”que teimava em viver e que renasceu muitas vezes graças a essa mulher de menos de um metro e cinqüenta de altura, olhar doce, palavra mansa e uma fortaleza que faz os gigantes tremerem.

Parabéns minha mãe Lúcia,  e a tantas avós Mundinha, tias Águeda, Zuleide, professoras Socorros e Mariainhas  pela coragem de remover pedras e plantar flores

domingo, 3 de março de 2013


Reencontros

É preciso preparar a alma para o reencontro. Trazer de volta à memória do tempo as imagens perdidas na "estrada da vida". Adultos, relembram prazerosos as ladeiras de pedra portuguesa, os casarios do século XIX destruídos pela incompreensão de seus donos, as tertúlias nos salões de casas de família, os namoros escondidos e concedidos, o medo, as alegrias de uma infância livre, as primeiras letras no grupo escolar...

Homens e mulheres, realizados e muito a construir, preparam-se para reviver sentimentos que os aprisionam nas turvas águas do rio Jaguaribe, no galo na torre da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Purificação, nas festas no mercado público, nas novenas e passeios aos caldeirões. Presos ainda ao som dos tambores anunciando a festa de São Gonçalo no terreiro de terra batida em frente à casa do Antônio Luiz. A dança cortando a noite os atinge com a mesma emoção de outrora.

Parecem crianças que trazem dentro de si os sonhos grandiosos que cabiam na palma da mão e os faziam voar além da pequena Saboeiro. Seriam reféns do passado que insiste aprisioná-los? Ou estariam se alimentando do passado na desvairada ilusão de aprisioná-lo para recriá-lo, comendo    "aquilo que já deixou de existir", no compreender de Rubem Alves.

Não importam o que sejam. Querem o reencontro, as recordações e trazer, por alguns momentos, o Saboeiro de suas lembranças . Numa noite de sábado, entre vinhos, queijos, algazarra, garalhadas, flashs das máquinas fotográficas e celulares de última geração. Clélia, Graça, Suzana, Liduína, Eugênio, Ismêna, Maia, Vicente, Suzete,  Vanderbilt, Querubina, Jânio... ,em frações de segundos, materializam pessoas queridas que já retornaram ao plano espiritual e a vida que escorreu na caminhada.

Em meio a histeria daqueles adultos-crianças com suas histórias, lembradas e recontadas no barulho da emoção, vem-me a mente o dizer do escritor e jornalista Gabriel Garcia Marques: "A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la". Acrescento, eu, cada um conta de acordo com o seu olhar e suas experiências. 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Sacrifícios em nome de Deus!



Famílias de agricultores viram retirantes da sobrevivência. Animais
são levados pela fome e sede; as sementes plantadas na terra árida e
sequiosa não vingam. A fome ronda os lares humildes da pequena e
esquecida Saboeiro. As privações são grandes, mas seus moradores
apostam na penitência para se purificar dos pecados e conquistar um
lugar no reino de Deus. E na pior das hipóteses selar "acordos" com o
Pai em troca do jejum e de horas de ladainhas e rosários tirados de
joelho em frente aos altares da igreja matriz de Nossa Senhora da
Purificação.

E não tem período mais apropriado do que a Quaresma. O sinal da cruz
feito com cinzas na testa dá início ao período de 40 dias de
purificação. Na véspera, os moradores acompanham o carnaval das
crianças. Da radiola saem as machinas que embalam a matinê. Esse é o
único dia de festa pagã na cidade. Mas, essa é outra história.
Voltemos as rezas e penitências.

 A missa das 9h está lotada por fiéis dos distritos, vilas e fazendas.
Os devotos da padroeira lotam o templo do século XIX para ouvir os
ensinamentos do apóstolo dos gentios:  "Porque a tristeza de Deus
produz mudança… mas a tristeza do mundo produz morte”. II Co 7:10.

Para as crianças, a missa é enfadonha e sem graça. Elas bem que tentam
acompanhar a liturgia, mas o entusiamo se limita a imposição das
cruzes. Durante todo o dia se recusam a lavar o rosto para não tirar o
símbolo de penitência e arrependimento pelos pecados cometidos.

O mais complicado é entender a mortificação do jejum. Minha
mãe era adepta do sacrifício. Alimentava-se do mínimo para se manter
em pé e ter forças para rezar várias vezes ao dia, louvando,
agradecendo e pedindo graças a Deus. Em todos os lares, a abstinência
fazia parte do cotidiano de seus moradores no período da Quaresma.
Cabia, principalmente, as mulheres atender aos apelos da Igreja. Um
homem aqui, outro acolá fazem o sacrífico.

Nunca entendi essa penitência e a lógica da troca com o Criador.
Menina pequena questionava a culpa dessa gente, que enfrentava, com
resignação, a seca e a privação de alimentos e água. Hoje compreendo
que levavam consigo a fé cega e inexplicável, que acredita no Deus
punitivo. Para minha mãe, a mãe dela, a mãe da mãe da mãe..., o perdão
dos pecados vem com a penitência e oração.

domingo, 13 de maio de 2012



Querida Bruxinha

Era uma vez... Assim começava minha mãe Lúcia a contar as estórias de princesinhas enfeitiçadas por bruxas malvadas, gatos de botas que percorriam quilômetros em um único salto, príncipes que viravam sapos, princesas adormecidas, peixes que falavam com os homens. Essas noites encantadas de nossa infância estão sendo revividas aqui, neste momento, nas fantasias de bruxa, princesa, fada, gangster, dançarinas, espanholas, heróis e heroínas de nossos sonhos...

 A Fada Madrinha, dos contos de minha mãe, tinha poderes e conhecia feitiços: transformava abóboras em carruagens, feras em belas, anões em gigantes, reis em sapos, fios de cabelo em correntes. Tomo emprestado de Rubem Alves, a lembrança de que não conhecia feitiço que fosse capaz de transformar canto de sapo em canto de sabiá. Pois esse milagre, lembra ele, somente os livros podem fazer, porque os livros põem música na alma. E é na alma que a mágica das estórias de Trancoso de nossas vidas transcende os sonhos, as ilusões, e se transforma em realidade.


Peço licença para contar a todos vocês uma história. Caberá a cada um      escolher se realidade ou um belo conto de fadas. A minha história começa assim: Era uma vez uma linda princesinha de cabelos cacheados, olhos pretos, sorriso fácil. Menina miúda de nariz arrebitado feito a Narizinho, de Monteiro Lobado, recebeu o nome de outra princesa, tirado das Mil e uma noites: Yasmin. A minha heroína não é filha de sultão, não tem um amigo macaco e nem viaja em tapetes mágicos.

A sua viagem é feita na ponta dos dedos. O meio de transporte: a sapatilha. No Demipliê, tandí, passé, pá de burrê ou no swing do jazz, essa menina-moça visita os mais longínquos mundos, atravessa mares, brilha com as estrelas, percorre distâncias nunca imaginados. No mundo da realidade, ela não precisa do gênio da lâmpada de Aladim, pois tem a fada madrinha que sempre transforma seus sonhos em realidade: sua mãe Suzana.

Feito outra princesa, a Xerazade, que enfeitiçou o sultão com suas estórias, a minha Yasmynhe enche nossas almas de coisas fascinantes, de carinho, alegria, vida. Das cartinhas inocentes escritas ao avô Chico, o grito por “mãe”, o carinho com a irmã Hannah, o sorriso para o Pedro, o pedido a “mãe Nini”, o amor incondicional ao pai Jorge. As birras com Tiago, o “Mamá”, quase todas as noites na janela de nossa sala.

Ah! Que delícia para os vizinhos tê-la como companhia. A família e os amigos sentem alegria em conversar com Yasmynhe. Pois quando ela fala, de sua boca saem lindas flores perfumadas e coloridas. Razão porque, só de pensar nela, todos sorriam...

Feliz aniversário, minha querida sobrinha, amiga, companheira, parceira.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Olhos que iluminam!

Tiago na cidade de Praga, capital da República Checa

Hoje acordei com saudade. Da correria em casa para evitar desastre iminente, dos gritinhos de gol, da quebra de braço com a babá Vaniza na hora das refeições, do “maaaaamãe, olha o passarim na janela”, do “Viiiittoooorrr”, da algazarra na hora do banho. Saudades do menino de olhos azuis-esverdeado que nos conduzia em tranquilas águas do mediterrâneo, velejando com segurança e alegria. 


Os anos passaram, precisamente 14, mas a travessia continua, com novas aventuras. Uma viagem a lugares nunca percorridos, assustadoramente belos. No fim de cada dia, o porto seguro, numa liberdade que permite a chegada da felicidade.


Sempre sereno, quase nunca se altera. Em uma casa de gente barulhenta, vozes sempre cortando o ar, correria, portas batendo, risadas, Tiago se mante calmo, manso, ordeiro. Convive pacificamente com a (des)organização do ambiente. Contraditoriamente, nunca foi coadjuvante na família. Sempre nos papéis principais.


Seria por ser observador atento dos fatos, não se omitir em opinar sobre os acontecimentos, desde os mais corriqueiros aos mais complicados envolvendo a parentada? Ou por não deixar uma pergunta sem resposta e encarar os mais velhos com confiança, sem intimidação, mas com um olhar tão meigo e carinhoso que nos induz a aceitar seus argumentos?


O seu poder de sedução nos leva, em alguns momentos, a quase histeria. Em outros, a êxtase. Continua estendendo os braços, hoje fortes, para a irmã Mariana no abraço carinhoso nos momentos de maior tensão entre os dois.  No afago a avó Lúcia, o sempre “sim” ao irmão Victor, não se importando de abrir mão de um desejo ou vontade.


Esse é meu amigo, companheiro, porto de partida e chegada. Meu nenenzinho. Meu filho, que tem provocado em mim, juntamente com Victor e Mariana, a necessidade de ser uma pessoa melhor. A transformação de humanas para “deusas” e bem-aventuradas que as mulheres fazem quando assumem a maternidade.


A saudade vai se transformando em alegria. Hoje, esse menino-moço, que começa a dar os primeiros passos na adolescência, soma com nossa família e amigos, muitos amigos, mais um ano de uma existência de semeaduras no bem, ternura, caridade, compreensão, desprendimento. 


Presa a esse amor e egoísta como toda mãe, recuso-me a aceitar o chamamento à realidade feito pelo escritor Gibran Khalil Gibran. Ele lembra que “vossos filhos não são vossos filhos. Eles vêm através de vós, e apesar de estarem convosco não vos pertencem. Sois os arcos dos quais seus filhos, como flechas vivas, são arremessados na direção do alvo que o arqueiro vê no infinito”.


Enquanto meu filho Tiago não alça o vôo do pássaro livre, para longe, numa direção não sonhada, lembrada por Rubem Alves, vou me segurando aos seus carinhos, beijinhos jogados de longes, nos abraços apertados, no “boa noite, mamãe”, no “eu te amo, mamãe” ao encerrar a conversa ao telefone, na mentira carinhosa de “você é a mais linda de todas, mamãe”  afagando o meu ego. Continuo presa no menino crescido de olhos iluminados.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Escuridão vence o lúdico

- O palhaço o que é?


- É ladrão de mulher


Sol a pique e lá vamos nós, ladeira acima, ladeira abaixo, acompanhando a trupe do circo que acabara de chegar à cidade. Palhaço, bailarinas, acrobatas, trapezistas, mágicos e a perna de pau em procissão chamam para o espetáculo logo mais a noite.


A lona é montada na praça principal, no fim da rua Visconde do Icó. De lá se avista o cemitério Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Na fachada do mercado público, o cartaz pregado com grude (espécie de cola feita de goma e água fervendo) anuncia para as 7 da noite o início da apresentação circense.  Meia hora antes, a criançada se empoleira ansiosa pelos artistas. As adolescentes, vestidas com a roupa de domingo, sentam nas primeiras filas. Talvez sonhando com o príncipe encantado no picadeiro de terra batida. Aos adultos, cabem as desconfortáveis cadeiras de madeira pesada.


Passam das 7 horas. A meninada impaciente grita, xinga, troca beliscões e empurrões. Para acalmar os nervos, picolé de morango e algodão doce. Menina miúda me acomodo na arquibancada mais alta, ao lado de um grupo de amigas. O risco de queda é iminente. O segredo é sentar na pontinha da tábua.


Tambores anunciam o início da apresentação. Fico eu com os olhos assombrados como o salto sobre o vazio do trapezista. Seguro o fôlego quando o mágico se prepara para serrar a moça ao meio. Concluo que no circo não se pensa. Assombra-se. É a realidade de Fernando Pessoa no seu dizer que “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.


Na minha infância em Saboeiro, igual a milhares de cidades pequenas Brasil afora, o circo é semelhante à visão de vida do poeta português, “uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos”.  No lugar pobre, de rara atividade cultural, o povo se embeleza, fica bonito para, com os artistas, entrar no mundo da fantasia. O picadeiro não é realidade. É uma esperança.


Noites quentes do sertão, embalo-me nos sonhos da bailarina em atravessar majestosa o arame, encanto-me com a simplicidade dos palhaços e a liberdade do trapezista. Mas são os homens com pernas de pau que me instigam. Como correr, pular, dançar em cima daquele negócio? Quando entram no picadeiro, viajo na imaginação e tento me equilibrar naquelas pernas. Ficar acima de todos, olhar para baixo com a soberba da altura.


A gritaria do público me traz a realidade. É dado o primeiro sinal de que a cidade entrará nas trevas em meia hora. Saboeiro é iluminada por energia a gás. O motor é desligado pontualmente às 21h30min. Dois avisos são dados todas as noites, sempre no mesmo horário – 21h, 21h15min -, para dar tempo dos atrasados chegarem a suas casas. No terceiro, as luzes são apagadas até as 17h45min do dia seguinte.


Alvoroço no circo. Adultos, crianças e jovens se acotovelam para sair. Muitos passam por baixo da lona, outros pulam da arquibancada. Correria até a segurança do lar. Os artistas, surpresos, são abandonados no picadeiro. O reencontro amoroso só na noite seguinte. Pontualmente às 19 horas, sem atraso. Sob pena de o lúdico ser vencido pela escuridão.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Fim de um ciclo

Nesta semana, um ciclo se fechou em minha vida. Outro está começando. Após sete anos coordenando a editoria de Cidade do Diário do Nordeste, sai do periódico. Horas depois, muitas ligações, mensagens, solidariedade. Sinto-me compelida a me despedir de minha equipe, profissionais competentes, que se transformaram em grandes amigos, companheiros. Vivemos momentos estressantes, próprios da redação de jornal, mas também compartilhamentos alegrias, vitórias. Amizades se construíram naquele caos, conquistamos respeito. Com eles, somei experiências, conhecimento, a paixão pelo jornalismo.


Enviei à equipe essa mensagem, que compartilho com vocês. Minha amiga Erilene, leitora e incentivadora do blog, brincava que era feliz por não ter nascido em Saboeiro e, portanto, não ser citada nas postagens sobre as aventuras e desventuras do povo daquela cidade especial. Pois é, minha “cãozinha”, chega o dia do caçador. Você está nele com todas as letras.


Saio do jornal com a certeza do dever cumprido. Exerci a função de editora com muita dignidade, ética e respeito aos meus professores de universidade, aos mestres de batente, que me ensinaram a ser repórter, editora, jornalista, e aos repórteres, a quem muito devo. Muitas vezes, como diz Mozarly, “transformando limão em limonada”.


O jornalismo é a melhor invenção do homem. Essa bendita profissão permite, a nós jornalistas, enxergar a vida em sua plenitude. Através dela, vivemos experiências capazes de nos transformar em pessoas melhores, entendermos a realidade que nos cerca e da qual estamos inseridos. Dizem os estudiosos que o papel do jornalista é informar e servir como mediador. Concordo, mas acho que é muito mais. No fazer jornalístico, participamos dos sonhos, esperanças, desilusões, apegos, dores, amores... de desconhecidos, pessoas que muito provavelmente não encontraremos mais. Viramos confidentes, amigos íntimos, salvadores.


Com algumas fontes estreitamos relações de amizade, respeito. Aprendi, creio que vocês também, que o jornalista deve ser imparcial, narrar os fatos com precisão, sem nenhum envolvimento ou posição definida sobre o fato a ser registrado. Logo nas primeiras reportagens subverti essa orientação e nos 24 anos de redação de jornal vivi um misto de sentimentos: raiva, indignação, revolta, alegria, emoção.


Aprendi com uma mãe que passava fome com filhos, mas tinha uma dignidade de fazer inveja ao mais poderoso e ilustre ser neste planeta; chorei copiosamente, no meio da redação, a incerteza de um adolescente de 16 anos que ficou tetraplégico após receber um tiro da polícia. O garoto, viciado em drogas, estava arrombando uma casa para roubar quando foi abordado pelos policias.


Sou parcial, no melhor sentido da palavra. Se é que essa palavra tem outro sentido senão o de tomar partido. Como não me indignar com seres humanos lutando pela vida em hospitais sem a mínima estrutura de atendimento, crianças e adolescentes sendo destruídos pelas drogas, a falta de políticas públicas que assegurem o mínimo de dignidade a pessoa humana?


O jornalismo é mais que uma profissão, é mais que vocação, é mais que devoção. É puro amor. Amor ao ser humano, aos ideais libertários, de respeito, cidadania. Espero, de coração, ter conseguido passar para cada
um de vocês um pouco desse sentimento. Acredito que, na loucura da redação, consegui transmitir o pouco do que aprendi. Tenham a certeza que muito estou levando de cada um.


Da Martinha Bruno, trago comigo a sua postura contestadora, decidida. De Lina, a serenidade no fazer com competência, a calma, amizade. De Ivna, o astral leve, sincero, humano. Da Thays, a beleza do viver, do vivenciar experiências. Da Leda, o cuidado na apuração, o construir. Da Karla, a teimosia na investigação, do descobrir, do fuçar (muitas vezes vi, no seu fazer, a Suzete do início da carreira). Da Karol, o despertar do conhecimento.


Da “Gisele” Luana, a resposta afiada, a postura segura. Da Jéssica, o entusiasmo com o jornalismo, com o produzir. Do Adalmir, tenho comigo o respeito aos anos de batente, a experiência.  Do Raoni, a alegria do desabrochar de um grande jornalista. Thiago, a certeza de cruzar, anos mais tarde, com um grande profissional.  O João, o jornalista já pronto para novos desafios. Da Mozarly, pouco a dizer. A sua vida profissional fala por si só e dispensa qualquer elogio a esta premiadíssima amiga.


Não posso esquecer a bondade e a presteza da “madre Tereza” Janine, a amizade e carinho de Carlos Célio, a rebeldia da Paola, a intensidade do fazer de Ludmila, a cumplicidade da Manu. Do Marcelo, a amizade renovada a cada fechamento do jornal, a serenidade, a tranquilidade, e de Janayde, o destemor com o futuro. Transmitam ao Dinho (Raimundinho) o meu carinho e respeito pela pessoa maravilhosa que tive a honra de conhecer e trabalhar.


Peço licença para falar em particular sobre duas pessoas que aprendi a respeitar. A Marthinha, a minha sub (recém chegada à editoria), os meus mais sinceros agradecimentos pelo apoio e companheirismo. Menina
centrada, silenciosa, perfumada. Éramos, o queijo e a goiabada, o vinho (você) e a água (eu), a tempestuosidade (eu) e serenidade (você).


Deixei por último a “cão” Eri. Com ela, dividi emoções, raivas, medos, incertezas, revoltas, alegrias. Minha gente, aproximem-se mais dessa mulher. Ela é vida. Aproveitem e suguem o máximo dessa chefe de reportagem, que ama, vive, respira jornalismo. Início de relação tumultuada, culpa minha, confesso. Com o tempo, admiração mútua, respeito, companheirismo. Discussões na definição de pautas, direcionamento das matérias, acompanhamento dos repórteres. Nos momentos mais sérios e graves, olhar de cumplicidade, choro silencioso. Para arrematar, fugas da redação no meio da tarde para aliviar a tensão com macunzá doce, pão de queijo, leite, bolo de milho.


A todos, o meu agradecimento pela convivência generosa, respeito e dedicação. Um ciclo se fecha e outro está começando em minha vida com muita serenidade. Desejo, a cada um, sucesso, alegrias, realizações. Quando estiverem aperreados na redação, lembrem-se do que disse Gabriel Garcia Marquez:


“O jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade. Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte".
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